Dia dos professores!

São cinco e cinquenta. Toca o despertador do celular. Com um movimento quase totalmente involuntário, ele pressiona o “soneca” e ganha mais cinco minutos imóveis.
Que voam.
Cinco e cinquenta e cinco, outra vez.
Se é sono, cansaço, preguiça, não importa. Repete a ação.
Seis horas: hora de levantar.

Por um instante ele se pergunta se tem mesmo que ir. Mas não mais que por um pequeníssimo instante. Ele tem que ir, obviamente. Ele não pode faltar. Ele sabe que vai, mas reflete entre devaneios.

Se faltasse, iria dizer o quê? Que está doente? Que acordou com dor de barriga? Vai dizer que bateu o carro? Não vai dizer nada disso. Ele não vai mentir. Arrisco dizer que doente, com dor de barriga ou após bater o carro, ele iria. E mesmo que houvesse um motivo realmente relevante, ele sabe que não daria para recuperar uma manhã tão quebrada.
Quebrada.

São duas no primeiro, duas no segundo, uma janela e a última de novo no primeiro. São 10 turmas ao todo na semana naquela escola. Faltar essa manhã quebrada vai atrapalhar o fechamento para a prova mensal. Ainda bem que ele já entregou as questões à coordenação.

Fez ontem à noite, ao chegar, ele se lembra. Inclusive, ele ficou muito orgulhoso por ter elaborado uma questão fantástica sobre…

– Seis e meia! Seis e meia!
Ele acabou dormindo durante os próprios pensamentos e perdeu a hora.
Corre ao banheiro, liga o chuveiro, põe pasta de dente na escova e, em poucos minutos, está bochechando em frente à pia, já depois de se secar quase que completamente.
Veste a blusa que estava ao seu alcance, passa ventando pela cozinha e sai de casa com a boca cheia de bolachas, descendo as escadas deixando farelo sobre os degraus.

Quanta pressa. Acabou esquecendo a fruta que ele se prometeu levar para o lanche todos os dias. Esqueceu na pressa.
Mas não por causa do despertador. Não pelo sono, nem pelo cansaço. O deslize no horário e o esquecimento não é bem a causa da pressa.

Sabe por que o alvoroço? Porque se existe uma profissão que exige pontualidade, é essa.
E como pega mal! Basta o professor atrasar-se por três minutos que sejam. Não é como a pontualidade de tantas outras profissões. O atraso do professor derruba uma peça em uma fileira de dominós.

Chegar atrasado é sempre feio mas, para uma escola, três minutos é tempo mais do que suficiente para os meninos deixarem suas cadeiras, onde esperavam o sinal bater, dirigindo-se à porta da sala enquanto os outros do mesmo corredor vão entrando ruidosamente em suas salas… Quase uma catástrofe. Bem ali, no meio do corredor, é fácil de ver.
É um ruído típico. Não importa se são alunos novinhos, mais velhos, ou se é uma autoescola.

Uma montanha de risos, entrelaços enérgicos de mochilas, estojos e cadernos. Como têm energia esses meninos! É um alarme humano que provoca um frio na barriga do coordenador. Que se transforma num misto de euforia alegre e quase raiva, que ele suprime com um sorriso e um gesto de pressa ao ver o professor terminar de subir as escadas.

São sete e trinta e três. O atraso é do tamanho de um macarrão instantâneo, e aconteceu apesar do indisfarçável suor na testa. Culpa do trânsito?
Claro que não. Ele sabe.
Acorde mais cedo, professor – pensa ele mesmo.
E começa a chamada:
– Amanda, Ana Carolina, Andréa… Silêncio!
Lá do fundo, ele ouve:
– O silêncio faltou!
Ele sorri, internamente. Mas fica sério, pois tem que terminar a chamada.

Ele olha rosto por rosto. Alguns sonolentos, outros muito sorridentes. Ele sabe quem são, já sabe até onde se sentam. Ele não decorou. Não tem como decorar pessoas. Ele sabe quem são, simplesmente. Não tente explicações.

Ele pode não conhecer suas vidas fora dali. Mas basta um olhar para perceber quando algo está diferente do usual.
Eles não imaginam que suas fisionomias perpassam diversos momentos em flashes durante a aula. É possível reconhecer suas vozes, o ruído do andar, a risada.

Alguns ele vai ver pelos próximos anos. Um é o irmão mais novo de um outro que foi seu aluno anos antes. Outros ele não vai ver nunca mais depois que o ano acabar. Vai ter quem ele encontre anos depois, passeando na praia, a milhares de quilômetros dali.

E ele volta e meia pensa em como isso influencia sua aula.
Lecionar não é pegar um conteúdo e colocar na cabeça do aluno. Não existe uma “portinha do conhecimento” que se abre para que as informações adentrem.

A gente aprende de tudo. Aprendemos palavras, o nome das coisas, dos lugares, das pessoas. E na maior parte das vezes não sabemos exatamente como foi que aprendemos.
E com os alunos também é assim. A aula é um momento de corações com batimentos irregulares. E numa confusão de emoções e expectativas está o conteúdo. A matéria. Aquilo que a gente gosta de dizer que vai cair na prova.

O professor hoje pensou nisso enquanto lia os nomes da chamada.
Mas não deixou de prestar atenção à chamada. Ele leu os nomes desses meninos tantas vezes naquela sala que a essa altura do ano ele poderia quem sabe fazer sem olhar para a folha. E quem sabe, anos depois até, viu? Nem outro professor acreditaria nisso. Mas acontece.
– Malú, Marcela, Mateus, Matheus… Hey! Semana que vem tem prova!
Não é uma bronca. Não é uma ameaça. É quase como um pedido de ajuda. E por mais agitados que estejam, muitas vezes eles acatam.

As turmas têm particularidades ímpares. Há salas mais agitadas, salas mais tranquilas. Em algumas nos sentimos tão à vontade que sentimos que poderíamos tirar os calçados durante a aula. Mas não, né? Cada professor acaba descobrindo como tomar para si alguns segundos da atenção deles.
E não pode perder, senão já era!
Ele aproveita o instantâneo silêncio e, finalmente, consegue:
– Victor, Vinícius, Yan, André.

São sete e trinta e sete e começa o “episódio de hoje”. E cada professor tem o episódio do seu jeito, naturalmente.
Uma história, riscos de giz ou pincel, projetores de slides, vozes, gestos, repitam comigo, mãos que se erguem, sucessivas.

– Professor, posso ir beber água?
– Pode!
– Professor, posso ir beber água de novo?
– Pode!
– Professor, posso ir beber água de novo?
– Você tá com algum problema hoje?
– É calor! Hoje tá calor! Essa secura!
– Ok, vai lá!
Professor, posso ir ao banheiro?
– Mas já? Só tem 15 minutos de aula, você não foi ao banheiro antes do início da aula?
– Fui, mas é que eu bebi muita água!
Todo dia uma pérola.

Alternando entre olhadas no relógio, ele escreve a última atividade da aula, sabendo que chegará ao fim três minutos antes do sinal.
Ele dá essa mesma aula há muitos anos, é fácil cronometrar, não é mesmo?

Não, não é a mesma aula. Nunca é a mesma aula. Ele pode usar o mesmo esquema, o mesmo cronograma, mas nunca é a mesma aula. A aula tem a cara do professor, o humor do professor. Tem a cara dos alunos, o humor dos alunos. Todos participam incisivamente na construção desse momento mágico, indescritivelmente único.

Em cada aula as pessoas ali presentes se entregam e tomam partes um dos outros para si. Doam-se, integram-se. A história da vida de todos os presentes está ali se soldando, de maneira indissolúvel. Alguns poderão lembrar-se inexplicavelmente de um instante daquela aula pelo resto de suas vidas.

Toca o sinal e começa o próximo horário. Tudo pareceu acontecer num piscar de olhos. Tem dia que passa devagar. Mas quando a aula flui o tempo voa.
O dia inteiro voa. Quando ele vê, já escureceu e ele está indo embora. Para casa?

Normalmente, não. Corrigir e elaborar provas, simulados, organizar diários, trabalhos, feira cultural, festa junina… Cada escola envolve o professor em seu ambiente de um modo diferente. Mesmo quando isso é feito em casa, isso não é exatamente ir para casa.

Além disso, cursinhos, faculdades, preparatórios, pós-graduação, escolas de idiomas são alguns dos destinos noturnos mais frequentes dos professores, estejam eles exercendo papel de alunos ou continuando o próprio.

Uma vez ele observou que aquelas pessoas nos carros e ônibus que por ele passavam estavam realmente cansadas. Mas a maioria delas estaria indo para casa, finalmente, descansar. E ele não.
E se perguntou:
– Será que professor não consegue ficar parado?

Muitos conseguem. Mas a maioria não pode ficar parado. A maioria não quer ficar parado. Pode ser por isso que muitas vezes achemos que nossos alunos poderiam fazer mais e mais. Não é uma crítica a eles. É um estímulo, na verdade.

O dia do professor termina tarde, depois do esperado. Sempre tem um e-mail, uma mensagem, uma ligação, uma nota que saiu errada, uma questão que mudou de gabarito, um colega que vai precisar faltar justamente no seu único turno um pouco mais tranquilo da semana… Era o dia que ele esperava ir ao banco, ao supermercado, ao médico.

O ano inteiro tem elementos aparentemente regulares. A semana do professor tem elementos similares, igualmente. Contudo, o dia do professor reserva novidades e surpresas a cada instante.

 

Psiu!

Ele vai dormir.

Guilherme Girão
Equipe QMágico